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PRA MACHUCAR

Primeira parte

Simonal é o melhor cantor do Brasil. Tenho dito isso há 20 anos e não achei ninguém que tenha concordado comigo. Era desses raros cantores que deixava uma marca em qualquer coisa que cantasse. No 8º Grupo de Artilharia da Costa, no Rio de Janeiro, onde serviu por três anos como datilógrafo, Simonal já animava bailes cantando calipso, rock e standards da canção norte-americana. Era reconhecido da mesma forma entre oficiais e cabos como ele. Sua mãe, empregada doméstica, acreditava que aquele seria o futuro do seu filho: o exército – e não estava errada. No Brasil dos anos 50, um negro, pobre, quase sem instrução, tinha que entrar no serviço público ou jogar futebol para se dar bem e ser respeitado. Simonal foi na terceira via, que sua mãe não queria considerar, mas igualmente promissora para um cara como ele: a música.

 

Muita gente começa a falar de Simonal outra vez. A justiça tardou, mas não deverá falhar agora. O ótimo documentário Ninguém sabe o duro que dei, de de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, é um começo mais do que auspicioso para seus milhões de fãs aqui e lá fora. O filme também deve contribuir para que as novas gerações conheçam a história e, principalmente, a obra de um gigantesco talento que assombrou o Brasil e o mundo na segunda metade dos 60 e comecinho dos 70. Espera-se, por exemplo, que os discos de Simonal sejam remasterizados e relançados. As notícias são animadoras. A caixa com todas as músicas que Simonal gravou na Odeon, entre 61 e 71, deve ser relançada. Organizada pelo jornalista Ricardo Alexandre, foi lançada em 2003 pela EMI e sumiu rapidamente das prateleiras; virou item de colecionador, o que comprova a popularidade e a importância de Simonal. Alexandre, autor de “Dias de luta – o rock e o Brasil dos anos 80”, ainda promete para esse ano uma biografia do cantor pela editora Globo, sem título por enquanto. Está para sair também o livro Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga (Record), tese de doutorado pela Universidade Federal Fluminense do historiador Gustavo Alonso Ferreira, que mantém o blog http://cadaumtemolivroquemerece.blogspot.com

 

As homenagens são justas para quem foi enterrado em vida e amargou quase 30 anos de esquecimento, humilhação e desprezo, ainda que tivesse feito o povo inteiro cantar, como dizia uma de suas músicas mais conhecidas. Simonal cometeu um erro grave ao suspeitar que seu contador, Rafael Viviani, o tivesse levado à falência quando fazia mais de 300 shows por ano no Brasil e no exterior, vendia muitos discos e tinha um dos maiores contratos publicitários da época (com a Shell). Ingênuo, Simonal pediu a dois conhecidos que dessem um corretivo no contador e o serviço foi feito. Um deles era do DOPS, o temido Departamento de Ordem Política e Social, que fazia o serviço sujo durante a ditadura militar. Viviani foi levado para lá e recebido aos costumes, com porrada, choque e tortura. Depois de uma noite apanhando (para dizer o mínimo), o contador não agüentou e confessou o desfalque.

 

No depoimento que dá em Ninguém sabe o duro que dei, Rafael Viviani não isenta Simonal de culpa, alegando que o cantor esteve no DOPS na manhã seguinte ao seqüestro, viu o estado em que ele estava e não fez nada. Solto, Viviani foi à delegacia e registrou queixa contra o ex-patrão por extorsão, seqüestro e tortura. Isso em 71, no governo Médici, uma das fases mais sombrias (e violentas) do regime militar. Instaurado inquérito, o policial Mário Borges depõe em sua própria defesa e justifica o uso das dependências do DOPS mentindo em juízo para se safar. Segundo o depoimento, ele pensou que o contador fosse mais um terrorista perigoso denunciado por Simonal, que costumava colaborar com a repressão como informante de longa data. Para piorar, o cantor, na base da valentia e no melhor estilo “xá comigo” que era uma de suas características, disse que se gabava de sua relação com os home, mas jurava inocência. No seu depoimento, Simonal alegava estar sofrendo ameaças anônimas e que suspeitava do ex-contador, por isso recorreu a seus conhecidos no DOPS. Não funcionou, a história se espalhou e o escândalo foi inevitável.

 

 

 

Naturalmente, por envolver um dos artistas mais populares do Brasil e um contador que tinha vários de seus clientes no meio artístico, o caso ganhou repercussão nacional. Da noite para o dia, começaram os boatos de que a ligação do cantor com o DOPS era mais profunda do que se imaginava. Simonal se tornou uma figura malquista. A mídia e seus colegas de profissão passaram a execrá-lo. A edição de 7 de setembro de O Pasquim, nanico que era reduto da esquerda, trazia como destaque “O magnífico e erecto dedo de Simonal, hoje mais famoso do que sua voz”. Além de seqüestro e tortura, era acusado de dedo-duro. Em novembro, o cartunista Henfil, que abominava as canções de Simonal enaltecendo as maravilhas do Brasil e o “charme e o veneno da mulher brasileira”, publica na sua página no Pasquim uma historinha em que o personagem Tamanduá sugere ao cantor o suicídio como única forma de conquistar o aplauso do povo. No mês seguinte, Simonal aparecia no “Cemitério dos mortos-vivos” de Henfil.

 

Em julho de 69, no quarto número do jornal, Simonal foi o entrevistado do Pasquim. O título (suspeito) da entrevista era Não sou racista. Ao contrário do que acontecia com outros convidados, o cantor não se intimidou com as perguntas de Sérgio Cabral, Paulo de Tarso, Jaguar e Pinheiro Guimarães. Simonal falou do seu sucesso e que se preparou para ele. Cutucou a crítica. Defendeu a Pilantragem. Minimizou a música de cantores e cantoras como Chico Buarque, Caetano Veloso, Nara Leão, Roberto Carlos, Gal Costa, Sérgio Mendes, Noel Rosa, Ary Barroso, Maysa e Jair Rodrigues, entre outros. Falou de suas origens e da vida na favela, bem como das vantagens de ter dinheiro. Esclareceu os boatos sobre uma carreira mais longa fora do Brasil. Enalteceu Dorival Caymmi, Gilberto Gil e Altemar Dutra, um dos maiores cantores brasileiros, por causa da voz, ao lado, é claro, dele mesmo. Deu poucos detalhes sobre sua rotina familiar, mas que aproveitava os poucos momentos de folga para brincar com seus filhos e ir ao cinema. Admitiu que existe racismo no Brasil e que ele não era racista porque era casado com uma loura.  Justificou o imenso sucesso que fazia porque se preocupava em fazer uma música que se comunicava com o povo. No meio da entrevista, Pinheiro Guimarães pergunta: E o que você acha que tem de mais bacana: beleza, bossa, voz, idéia ? A resposta de Simonal: Eu tenho muito charme. 

 

Boicotado por colegas, excluído da televisão e do rádio, sem fazer shows, vendo seus discos sendo retirados de catálogo, Simonal estava acabado. Foi julgado e preso em 72, condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, cumpridos em liberdade. Não houve mais volta. Nas décadas seguintes, continuava tentando provar sua inocência e até conseguiu um documento da Secretaria de Direitos Humanos do governo FHC afirmando que ele jamais havia colaborado com os órgãos da repressão. O filme mostra cenas do cantor em programas de televisão (Paulo Giovanni, Hebe), magro, abatido e sem forças, com os documentos na mão. Tarde demais. Simonal estava relegado ao ostracismo e à morte, o que acabou acontecendo em 2000, por cirrose hepática. Triste, amargurado, caluniado e esquecido, o maior cantor do Brasil morreu de tanto beber.

 

É claro que há várias passagens mal contadas nessa história, que nem o documentário consegue elucidar, até porque não toca em determinados assuntos. De quanto foi o suposto desfalque do contador, se é que ele ocorreu ? Se não, onde foi parar o dinheiro de Simonal ? Ele pediu mesmo que Viviani fosse levado ao DOPS ? É fato que ele era um bon vivant, tinha carros importados, boas roupas, bebia os melhores uísques, estava sempre acompanhado de belas mulheres, tinha a Simonal Produções, quase 20 funcionários, pagava impostos, multas  etc - mas trabalhava muito e o dinheiro não parava de entrar. Por que o contrato com a Shell foi rescindido quando Simonal estava no auge e antes dos acontecimentos que precipitaram a sua ruína ? Nelson Motta dá uma pista no filme, mas não esclarece. Por que ninguém partiu em defesa de Simonal ?  Paulo Moura, constrangido, dá um depoimento no filme, talvez falando por tantos outros músicos que trabalharam com Simonal. Sabá, o seu baixista no Som Três, diz que o cantor nunca comentou sobre o assunto com seus músicos. Por que o depoimento do inspetor Vasconcelos, superior direto do policial Mário Borges, desmentindo a sua declaração mentirosa e infeliz também não ganhou as páginas dos jornais ? A peça consta no inquérito criminal instaurado pelo promotor público Pedro Fontoura na 23ª Vara Criminal do Rio de Janeiro (então Guanabara), em 13 de outubro de 1972. Por que os depoimentos nervosos de Sérgio Cabral e Jaguar, a turma do Pasquim, são os mais duvidosos em Ninguém sabe o duro que dei ? Por que o Ziraldo, que também fazia parte do jornal, tenta limpar a sua barra e a do Pasquim ? Por que todos reconhecem, em termos, o talento de Simonal, menos o Jaguar, que na edição do filme apareceu como um cínico escroto ? Por que fizeram isso com Simonal ? Foi racismo e inveja, além dos delitos que Simonal cometeu e pelos quais foi julgado e condenado ? Simonal pagou a sua pena e não foi considerado um cidadão melhor. Não foi anistiado e permaneceu no limbo quando até torturadores eram recebidos com festa nos aeroportos da abertura promovida nos últimos anos da ditadura militar. Ninguém sabe duro que dei é uma apologia a Simonal que comprova a sua inocência ?

 

Penso que sim, e que já estava na hora de alguém partir em defesa de Simonal, que nunca fez nada, a não ser cometer o erro de pensar que podia tudo, como muitos artistas que estão no auge. Simonal não foi delator e não era um adesista como acreditava o Pasquim em sua insidiosa campanha contra o cantor. O grande mérito de Ninguém sabe o duro que dei é contrapor o sucesso e o fim trágico, injusto e melancólico de Simonal, com o convite para conhecê-lo melhor, sem censura e preconceito.

 

No próximo post, o que interessa: a música de Simonal.     

 



Escrito por sergio menezes às 17h30
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